quinta-feira, 2 de julho de 2009

O PROBLEMA DO SOFRIMENTO

Desde a mais tenra idade, homens e mulheres têm procurado encontrar sinais da presença de Deus, em meio ao sofrimento. E o sofrimento tem se tornado um dos maiores desafios à fé cristã. Onde está a justiça de Deus, diante de tantas catástrofes? Terremotos... Doenças... Estupros... Assassinatos... Como aconselhar uma pessoa portadora do vírus de HIV ou como falar da justiça de Deus a uma menina de apenas dez anos de idade que engravidou do próprio pai?
Em 1º de novembro de 1755 na cidade de Lisboa capital de Portugal, houve um devastador terremoto...E aquele dia era o que os portugueses, na sua grande maioria católica, chama de dia de todos os santos. Isto significa dizer que em 1º de novembro de 1755, as igrejas de Lisboa estavam completamente superlotadas. Mas, de repente em apenas 6 minutos... Milhões de pessoas que estavam dentro destas igrejas foram mortas. Mais ou menos, 30 igrejas foram destruídas em poucos minutos... Igrejas de várias denominações foram destruídas... Igrejas que levaram cem anos para serem construídas... Igrejas que haviam custado o sangue de gerações foram destruídas em apenas alguns minutos.
Atordoada com a notícia, a Europa que ainda respirava as ameaças do iluminismo se desesperou... Foi aí que os filósofos começaram a se levantar. O mais famoso deles foi Voltaire, que sabedor do acontecido disse: “Como é que vocês ainda podem acreditar na bondade de Deus... como é que vocês que viram seus parentes e amigos mortos dentro de uma igreja, ainda podem crer na bondade de um Deus assim”? Ele escreveu isso, num poema de sua autoria, acerca do “Desastre de Lisboa”. E neste poema, Voltaire pergunta: “Se Deus é justo, se Deus é bom porque é que sofremos sobre o seu governo”? E o grito de Voltaire invadiu o mundo. Invadiu as Universidades... Invadiu o pensamento... Invadiu as Igrejas... E a partir do grito de Voltaire, muita coisa começou a mudar. O ateísmo disparou como filosofia... O existencialismo disparou como filosofia do absurdo... Mas, a pergunta de Voltaire, não é somente a pergunta de Voltaire... É a pergunta de todos nós... Quem nunca questionou Deus diante de uma perda... Diante de uma oração não respondida... Diante de uma tragédia? Se Deus é justo, livre e bom, porque é que Ele nos deixa sofrer? Esta é a pergunta que não quer calar!
O fato é que o sofrimento existe... E qual é na perspectiva Bíblica, o motivo de tanto sofrimento?
Esse é um tema que levaria muito tempo para ser esmiuçado. Mas, vejamos o que a Bíblia, nossa regra de fé prática, tem a nos dizer sobre isso...
• A Bíblia ensina que o sofrimento, pode ser originado por forças que estão além de nós... E isto fica bem claro, quando a gente ler o livro de Jó. Ali estava um homem bom, reto e temente a Deus... Que não era um prostituto da humanidade... Que não era mal, mas que sofreu como ninguém jamais sofrera. E a Bíblia diz que todo sofrimento de Jó foi resultado de uma ação concreta de satanás. E ao longo da Bíblia, nós vamos encontrar forças estranhas que oprimem homens e mulheres levando-os ao sofrimento físico e emocional. (Basta ler os evangelhos, por exemplo).
Paulo, o apóstolo, diz que trazia uma espinho na carne que ele chamou de “mensageiro de satanás” e que tanto poderia ser um defeito físico, como uma doença... Ninguém sabe!
• A Bíblia também ensina que o sofrimento é causado pelo pecado... Mas que pecado? Pode ser pelo nosso pecado... Mas também poderá ser pelo pecado dos outros, como é o caso da pedofilia... das pessoas que são vítimas de motoristas embriagados, adolescentes que foram vítima da covardia de um mal caráter...
• O sofrimento também pode ser causado pelas injustiças sociais... Enfermidades... Desemprego, etc. Vários outros motivos são causadores de sofrimento...
De maneira que a causa do sofrimento tem sido um dos maiores desafios à fé cristã, principalmente porque a maioria das pessoas em meio ao sofrimento tendem a se sentir abandonadas por Deus e é nesse momento que precisamos estar preparados para ajudá-los a enfrentar a crise, não julgando nem fazendo perguntas, mas recorrendo ao Espírito Santo de Deus que intercede por nós até com gemidos inexprimíveis (Rm.8:26).
É nesse momento que precisamos encontrar as diretrizes certas, para aconselhar sem medo, culpa e vergonha, ensinando que embora o nosso corpo reaja a dor e ao sofrimento, a Cruz de Cristo nos ensina a transformar todos os momentos de sofrimento num momento de profunda paciência e espera.
A Bíblia diz que Jesus suportou a Cruz... E Ele quer que com Ele sejamos capazes de suportar o fato inevitável do sofrimento... Não fugindo para o momento fantasioso das drogas... da bebida... da prostituição... Mas encarando com resignação e paciência , a dor e o sofrimento.
Uma das histórias mais chocantes que eu já ouvi, foi a de um menino no campo de concentração na Alemanha. Ali, o menino viu seu pai sendo enforcado pelos nazistas e ele agarra na mão do seu tio...Um menino de apenas sete anos de idade... Agarra na mão do tio e diz: Tio, onde está Deus? E o tio olhando para o pai enforcado do menino responde: “Meu filho, olhe para lá... Deus está ali, enforcado com seu pai”.
É preciso mostrar ao mundo que “O mesmo Deus que nos permite sofrer, é o mesmo Deus que um dia sofreu em Cristo”. É preciso entender que quando estamos de joelhos no chão, clamando pelo sofrimento dos nossos filhos, dos nossos amigos... Não estamos sozinhos... Ele... Deus... Estará ali de joelhos conosco...Quando estamos nos sentindo injustiçados, Deus vai estar da mesma maneira, injustiçado conosco.
Numa de suas pregações, o Pr. Estevão foi categórico em afirmar , que: Onde quer que formos, Deus chega antes... Deus estará sempre conosco... Jamais nos deixará sozinhos.
E como ilustração, eu deixo registrado aqui, um texto exposto no livro do Dr. Sttot “A Cruz de Cristo”. Nesse texto ele faz narração de uma peça que tem como título “O grande Silêncio”.
Essa peça, fala que nos fins dos tempos, bilhões de pessoas estavam espalhados numa grande planície diante do trono de Deus... Havia ali, muitas pessoas diante de Deus... E alí, Deus estava em julgamento... Ali, Deus era réu.
E um judeu se levantou... Rasgou a blusa, mostrou o nº do campo de concentração, olhou para Deus e disse: “Nós suportamos o terror, os espancamentos, a tortura, a morte... Olha aqui... E tu, oh! Altísismo, onde estavas?
E aí um negro se levanta e diz: Oh! Altíssimo, nós fomos linchados, perseguidos, as nossas casas foram queimadas, os nossos bebês incendiados, pelo único crime de ser preto, e onde Altíssimos, tu estavas?
Uma colegial grávida se levanta e diz: Porque é que eu devo sofrer, oh! Altíssimo? Não foi culpa minha... Fui estuprada...
E assim, sucessivamente, uma criança com síndrome de Dawn... Uma pessoa de Hiroxima... Todos se levantavam... Perguntavam e reclamavam de Deus – “Tu, estivesses no teu trono todo tempo... Hoje, nós é que vamos te sentenciar... Hoje, nós... O judeu, o negro, a menina grávida, a pessoa de Hiroxima... Hoje, nós é que vamos ser os teus julgadores...”
E eles prolataram a sentença e a sentença foi a seguinte: “Tu, vais sofrer o que nós sofremos... Que tu nasça judeu, que haja dúvida acerca do teu nascimento, que se lhe dê um trabalho tão difícil que ao tentar realizar até a tua família, pensará que estás louco. Que tu sejas traído como nós, pelos teus amigos mais íntimos. Que encontres acusações falsas, que tu sejas julgado por um jure preconceituoso e que sejas condenado por um juiz covarde... Que sejas torturado e finalmente que tu conheças o terrível sentimento de estar sozinho... E aí, então que tu morras!”
Foi esta a sentença que eles deram para Deus.
E quando eles acabaram de pronunciar a sentença, ouve um longo silêncio!
Ninguém se moveu. Sabe por quê? Por que de súbito, todos eles entenderam que Deus já havia cumprido na vida e na Cruz de Cristo toda aquela sentença.
É isso aí... Em Cristo, na Cruz, Deus nos ensina que “toda dor, mesmo as imerecidas, encontrarão guarida no Seu Coração”.
 
Bete Casado

ÉTICA, SOCIEDADE E CULTURA

Viver na geração atual é experimentar sensações; quanto mais forte e intensa melhor. Nada de sentimento de culpa, nada de bem e mal, nada de valores. Para a geração atual, nada é absoluto, nada é sacrossanto. Tudo é relativo. É como se as coisas se encontrassem num supermercado... Disponível... Que você vai lá e pega. A pós-modernidade atesta a falência dos valores modernos. O conhecimento secular abriu novas perspectivas. Produziu informações... Multiplicou escolas e Universidades... Mas, não resolveu a crise de formação dos intelectuais. A maioria das pessoas está vivendo o modelo de vida apresentado pelas novelas, pelos comerciais de tevê. Nunca tivemos uma indústria de laser tão grande e diversificada, com opções como a TV, a Internet, os esportes, a moda, o turismo, mas a humanidade nunca foi tão triste e sujeita a tanta doença psíquica e emocional. Por isso, embora algumas pessoas digam que na prática, ética e cultura se achem fora de moda eu deixo aqui mais um dos meus textos que tem como tema Ética, Sociedade e Cultura.
Com base no pensamento de OLIVEIRA, Manfredo Araújo, sobre o fato de que “ enquanto ser da liberdade, o ser humano é o ser da decisão” O Prof. Dr. Valério Guilherme Schaper, no seu texto didático sobre Ética, argumenta que como “o nosso mundo é aberto”, “precisa ser modelado pela nossa atividade” . Atividade esta, que na sua totalidade, ele chama de “Cultura”. Segundo ele, “cultura é criação social”, ou seja, “é o resultado de soluções e respostas criativas que indivíduos deram diante de situações que a vida colocou e sua origem está na exteriorização criativa das gerações que nos precederam”. Ao nascerem, os indivíduos, entram em relação com esta exteriorização dada, assimilando-a e contribuindo com novas perguntas e novas soluções. Essas soluções podem ser técnicas ou paradigmáticas.
Por outro lado, quando a cultura passa a exercer um poder coercitivo, os que não compartilham de determinadas normas ou valores são considerados anormais, entrando em cena alguns mecanismos de punição gerando “medo e insegurança”. De maneira, que somente em nome da tradição e na crença forte de que “progresso conduz a um amanhã melhor”, é que a ordem poderá ser legitimada.
Com base, porém, na palestra sobre “ A Ética e a Formação de Valores na Sociedade” ministrada por Leonardo Boff em 12 de junho de 2003, na Conferência Nacional 2003 - Empresas e Responsabilidade Social, promovida pelo Instituto Ethos, em São Paulo, três eixos são fundamentais na crise que afeta todas as sociedades do mundo. O primeiro diz respeito à pobreza, à miséria, ao que podemos chamar de apartação social. Basta lembrar que se desenvolve em todo o mundo um processo devastador de Apartação Social, onde seres humanos gritam querendo viver, participar, e cada vez mais repudiam o veredicto de morte que pesa sobre sua vida. Como exemplo ele cita o Brasil, fazendo um alerta aos empresários no sentido de que encontrem uma saída, de modo que se possa dar um salto de qualidade e gerar um Brasil de “outros quinhentos”, um país com um novo rosto, com mais justiça e inclusão social.
Como segundo eixo, ele cita o sistema de trabalho. Em quase todas as sociedades, há uma grave crise de emprego. Como solução ele sugere que seja criado um outro tipo de relação social de relação com a natureza, de maneira que as pessoas não se sintam excluídas. Tudo isso, segundo ele, suscita um enorme problema ético.
O terceiro eixo da crise, que também levanta questões éticas, está no que se pode chamar de alarme ecológico. A Terra sofre um estresse fantástico em todos os seus Ecossistemas e dois pontos contribuem para esse “estresse fantástico”: a falta de alternativas para a energia fóssil e a crise da água potável. Segundo ele, “é preciso elaborar uma nova benevolência, um novo tipo de relação com a natureza, cujo desenvolvimento não se faça contra ela, mas com ela, e que haja uma percepção de justa medida da escassez de seus recursos. Caso contrário poderemos ir ao encontro do pior”.
Mencionando que os problemas são globais e demandam uma solução global, ele, dá ênfase ao fato de que precisamos de uma nova base para as mudanças necessárias as quais deverão apoiar-se na essência do ser humano já que somos seres racionais. Isso, no entanto, só será possível quando resgatarmos “o eros, o sentimento profundo, como condição mínima para estabelecermos um consenso ético mínimo entre os seres humanos”, A razão não é a base da existência humana, mas aponta o caminho para a afetividade que são Vigor e ternura. Trabalho e cuidado. Empenho transformador e o habitar o mundo com sentimento, poesia, alegria, jovialidade, amizade, amor. É preciso, diz ele, elaborar uma ética do cuidado, que funciona como um consenso mínimo a partir do qual todos possamos nos amparar e desenvolver uma atitude cuidadosa, protetora e amorosa para com a realidade.
Junto com a ética do cuidado impõe-se uma ética da solidariedade. A solidariedade e a cooperação é que permitiram a sociabilidade, o surgimento da linguagem, e definem o ser humano como sócio, como companheiro — filologicamente, aquele que comparte o pão. Somos, portanto, seres de solidariedade.
Finalmente, ele fala da ética da responsabilidade. Essa ética diz o seguinte: ‘“Aja de tal maneira que sua ação não seja destrutiva. Aja de tal maneira que sua ação seja benevolente. Ajude a vida a se conservar, a se expandir, a irradiar”’.
O que eu entendo de tudo isso? Que na realidade, o mundo no qual vivemos é uma rede de relações nas quais o “eu” está inserido e não o contrário. Dessa maneira, precisamos reconhecer quem somos valorizando o meio em que vivemos, marcando procedimentos que deverão ser seguidos para se chegar a resultados justos. É preciso reconhecer, por exemplo, que temos a responsabilidade de preservar a água potável para as gerações futuras. Sabemos, no entanto, que são corruptos aqueles que desviam o dinheiro público e que não podem ser punidos porque não há provas o suficiente para se iniciar o processo.
Por isso, concordo plenamente com o autor, quando ele diz que “se olharmos a magnitude dos problemas, nós nos sentiremos impotentes”. Mas, será que ele também está certo quando diz que “se começarmos conosco mesmos, a mudança que fizermos não ficará restrita a nós”. Espero em Deus que sim. Que “o bem que fizermos contamine”!
Bete Casado